Poemas

 

 

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Parque Villa-Lobos
A Cidade do Poeta

Barbárie Drummondiana
A Idade do Silício
Lua do Sol
Múltiplo
O Poeta da Cidade
Menino Cananeu 

 


 

Parque Villa-Lobos

Sou um enamorado morando
numa gleba do coração do Sol
sob regime de comodato;
ao voltar à terra, reza o contrato,
devo deixá-la com melhoramentos.

Assim, comprei de mim
mil sementes de pipas azuis,
vermelhas, amarelas, que florescerão
durante as primaveras.
Sim, aTerra é boa . O Tempo, férti
l.

 


 

A Cidade do Poeta

Sob o sol do Sul, um ipê se aproximava
do andarilho com seus cães. Mas, metralhadoras
                                                           
na favela...
Ainda assim,
o artista libertou os domesticados:

bem
se escondeu;  mal correu — desacorrentado.

Pródigo, o ipê ofertava ao poeta
seu raro amarelo nítido: ensinava
que o belo é meio, não um fim, ao infinito.
Mas, metralhadoras numa vilela...

De longe, saltitantes, bem e mal
retornaram às coleiras imaginárias
do consagrador de palavras,
mas o amarelo inovador com gravidade
                                             
foi ferido
no cantarejar das metralhadoras
                                    
na viela:

 um pequeno lusíada mestiço,
num beco brincando com a vida,

morreu — sem saída.
 


 

BARBÁRIE DRUMMONDIANA

 

 

O homem que matou o branco que matou o índio
 que matou o índio que matou o branco que matou o negro
 que matou o índio que matou o negro que matou o negro
 que matou o branco que matou o branco — se matará ?

 

 

 

 


 

IDADE DO SILÍCIO

Ele era um qüídam treinado pra resolver tudo
                                                          
rápido,
mas, se preciso, era descartável,
um vendível espírito esperto,
um tacanho a serviço dos vampiros
                                               
momentâneos.

Ah se opinasse
sinceramente sobre a dita-cuja suja
                                    Companhia. 
Ai se opinasse!
Rua!

Era o tempo dos cadáveres à globalização
                                          
dos prejuízos,
era o tempo da idade do silício:
                                     
chips, ao infinito!

Certa noite, numa insônia,
uma fome roendo tudo dentro:
 
“ Qual sanduíche mais rápido que se pode fazer ?
    Pão com quê ? Com quê?”  (Pão com todos os miolos!)

Doravante: pão com miolo com pão com
       
miolo do cão, da mulher, dos filhos,
                          num tiroteio coa polícia.

 Matou. Morreu.
Mata-se em vão na cidade.

 Trágica história do nosso herói.
Sim, meu ilustre ouvidor,
 nosso herói sem nome:
 anônimo sem Homero.


 

LUA DO SOL

O poeta entrou na casa
e amou sua alma:
um olhar duma camponesa russa,
um ipê amarelo — entre girassois.

O poeta abriu-lhe os poros,
e dentro do solitário colo
dormiu nu — jeito de menino, traços de mulher,

pois o poeta é mulher e homem!
um coração de terra com pedaços de pão
onde ao cair da tarde os pássaros vêm
                                                                 e vão.

Por longo tempo,
a alma da casa ferida
não se atemorizou com a escuridão do poço
                                                                   da vida,
 pois possuiu um moço com a lua do sol
                                                                de Orfeu.

 

 


 

 

MÚLTIPLO

 

Quando se ama, 
a gente vira gente
do tamanho certo.

O amor é múltiplo do inteiro.

 

 


 

O POETA DA CIDADE

 

Cai a lua sobre ambulâncias,
polícias e carros fúnebres.
Ainda erótica, apesar de torta,
a noite é sonâmbula sagrada de segredos;
não daqui, mas das florestas mágicas
onde o vento canta encânticos
de bruxos, em ritmos, em refluxos,
da sinfonia universal.

A metrópole inquieta
propicia assassinatos,
enganos e furtos.

O tempo é frívolo, atávico.
A cama é crua: não há sonhos.
Só sobraram vinhos tristes,
beijos pródigos passados,
flores lívidas sem perfume, músicas
                                                    sem alaúdes,
partituras sem piano, silêncios,
                                   promessas — e hálitos.

E a mensagem que chegou
estava em código secreto.

Ainda assim, o poeta saiu errante,
à noite, com a marginália de seu livro
                                                           vivo;
de repente, abriu os braços ao relento
e acariciou só, solenemente, os cabelos

do Cruzeiro do Sul.


 

MENINO CANANEU

 

I.
Preciso adormecer o Sol cansado
                             da tempestade
que não quer passar na rua do Homem.
Vou adormecê-Lo num acalanto,
explicando-Lhe que no infinito há estrelas
qual Ele grávidas — do mesmo amor.
Só então irei sonhar — junto ao meu artista:
um menino cananeu, nativo, que vive de sobejos.

Preciso dormir cedo,
acordar...  e ver o Sol.

II.
De mãos dadas à manhã,
caminhavam dois caminhos,
procurando algum destino
quando, com espanto, o poeta se deu conta
que seu menino o levara, pela mão, ao encontro
de alguma coisa luzidia sobre a flor da fantasia.

E revelou iluminamento
um sol pequenininho na ramagem
                                     que luzia.