Quem é Ramiro Conceição Nascimento

Apresentação

( texto de Hamilton Faria )

"Conheci Ramiro Conceição Nascimento na década de 80 quando nos reunimos em torno de um evento denominado "Poesia Linguagem Universal". Fazíamos recitais por toda a cidade de São Paulo e cercanias. Inicialmente criamos um espaço poético na Litteris Livraria e Café, depois seguimos para o bar da Aliança Francesa, cheio de espelhos, na General Jardim e, simultaneamente, de forma itinerante, apresentávamos nossos textos em praças públicas, no MASP na Secretaria de Cultura, no Centro Cultural Vergueiro, na passarela da Consolação em escolas e casas. Estávamos tão entusiasmados com as palavras voantes, que saltavam fora dos livros para o coração das pessoas, que pensamos na possibilidade de descer com um balão na Praça da Sé, distribuindo poemas para a população que esperaria ansiosa. Certamente isso não aconteceu, mas resultou em boas risadas nas madrugadas poéticas. 

O movimento cresceu tanto que estávamos presentes com freqüência na TV e uma das performances poéticas teve destaque de quase 10 minutos no Jornal da Globo. Já no final dos anos 80 o grupo se dispersou. Eu e Ramiro nos enveredamos pela vida acadêmica em mestrados e doutorados e cada um, do seu lado, continuou com a sua criação poética. Desde aquela época nunca mais vi o Ramiro. Mas ficou forte na lembrança o seu jeito de declamar — uma mistura de canto negro, batuque, grito índio. E voz de navegador português espantado com a emoção de terra à vista. Ficou também a imagem do cientista que se superava pela poesia (Ramiro era engenheiro nuclear) e do menino que resiste à frieza do mundo racional para sobreviver.

E agora Ramiro, depois de todos esses anos vem a público lançar o seu primeiro livro trazendo consigo a emoção daquele momento em que apenas cantava as suas palavras.

Então o poeta visita a cidade não compreendendo a sua dureza com os meninos ("País dos Futeboleses"), com o cantador de baião ("Cantador"), com o negro Jonas ("Nome da Rua"), com os heróis sem nome ("Idade do Silício").  Mas apesar das metralhadoras da favela, num belo dia "o ipê ofertava ao poeta seu raro amarelo...".

Todo o livro é construído na tensão entre a beleza da vida e da poesia e o concreto real, duro despoetizado sem maravilhamentos. Compare-se "Barbárie Drummondiana" com a sua realidade crua e o encantamento de "Lua do Sol".

Para Ramiro nos redimimos pela poesia porque o poeta é "...um coração de terra com pedaços de pão onde ao cair da tarde os pássaros vêm e vão." e um ser que se agranda quando ama:

"Quando se ama
a gente vira gente
do tamanho certo
o amor é múltiplo do inteiro"

("
Múltiplo")

Outra tensão que atravessa o texto é aquela que se dá entre o ceticismo do engenheiro racional e objetivo que não acredita nas primaveras e duvida do amor e o poeta que vê, não o átomo frio, mais o movimento das crisálidas e borboletas. O poeta que indaga: "O que fazer / com a lua que ainda fala / quebrada na sala?" e o engenheiro que diz que a magia fugiu dos seus olhos. Mas o importante é que "Tudo tem uma nova vez além da última /  pois que tudo não pode estar contido / em uma única.". E o engenheiro que procura buracos negros na galáxia passa a compreender pela criação que a luz poética tem asas ("Luz Poética"). Então em alguns momentos o texto desfaz a tensão quando o artista amadurece e percebe que a arte é uma rara tangerina. E o poeta começa a perceber com o olhar dos cegos que vai além da vidraça. E o poeta começa o seu movimento de liberdade ao compreender que a vida não é simplesmente este par de opostos que nos dilacera, mas que encontramos na beleza a nossa unidade e transcendência. "Sim, liberto agora estou porque sou efêmero!".

E mais: nós, poetas que viemos de estrelas retornaremos a nossa mãe:

 "Eis a humana profecia: do pó — à Poesia!".

Agora resta "...o Vagalúmen Azul acendendo e apagando os dias, em homenagem ao Sol." Porque a poesia é a síntese, a saída que nos faz viver a concretude como se o real fosse sendo tecido com fios imaginários e encantados. Neruda diz: "Si se termina el amarillo con qué vamos hacer el pan?". E assim o poeta Ramiro é capaz de criar andares nas escuridão  mesmo sendo um ser que pensa não existindo, porque apesar dos assombros e da difícil condição do existir da humana idade, mesmo sendo seres imperfeitos que farejam estrelas,

 ..."a Vida pr´alguma coisa ceslestina

                                        se destina".

 

Hamilton Faria